domingo, 22 de novembro de 2009

As muitas faces de Helena

As muitas faces de Helena
[e as loucuras de uma leitora compulsiva]

Bem, já disse anteriormente que sou uma grande fã de mitologia grega, e que meu ciclo preferido de lendas gregas é o troiano, e justamente por amar tanto esse conjunto de lendas tão fantasticas, que sempre compro muitos livros, principalmente romances, sobre o assunto, já que assim, posso comparar as várias perspectivas adotadas pelos autores e formar a minha propria visão das lendas sem me prender a algo estereotipado.


Recentemente, li Helena de Tróia, de Margaret George (a mesma que escreveu As Memórias de Cleopatra e Maria Madalena), de longe uma das minhas escritoras favoritas. E a abordagem que Margaret faz de Helena, fascina justamente por se mostrar tão simpática e partidária ao lado troiano da história, já que Helena adota o povo troiano como seu após a fuga de Esparta.

A Helena deste romance é uma verdadeira heroína! Inteligente, sensivel, romantica e aventureira. Uma princesa que se casa com Menelau por simpatia e amizade, mas que tenta em vão se apaixonar pelo marido, até que Afrodite coloca Páris em seu caminho, o verdadeiro amor de sua vida, e por ele Helena joga tudo pro alto em busca da felicidade. Seria lindo se não fosse tragico, claro!

A escritora segue a cronologia das lendas através das memórias de Helena, sempre colocando a perspectiva da rainha como foco principal do livro. Helena é uma jovem que anseia por liberdade pois se vê escrava de sua aparencia durante toda a sua vida como uma espécie de maldição. Ela se apaixona por um jovem Páris, quase 10 anos mais jovem que ela, mais proximo da idade de sua filha Hermione, de 9 anos, do que dela, de 25. Mas apesar de jovem, Páris já viveu muitas aventuras entre sua vida de pastor no Monte Ida e a de principe troiano.

Os personagens são super carismáticos, como George costuma fazer em todos os seus livros, e justamente por isso, é impossivel não se apaixonar pela majestade de Leda e Hécuba, pela solidariedade de Andromaca, ou pela esperteza das jovens princesas Hermione e Polixena. Até mesmo a temível Clitemnestra é mostrada de forma simpática pela autora. Mas o que mais me chamou a atenção foi o fato de trabalhar a vida de Helena também após a queda de Tróia, falando de sua estada no Egito e seu regresso à Esparta como rainha ao lado de Menelau, assim como a reconquista do afeto de Hermione e como ela lidou com seus proprios erros cometidos pela paixão avassaladora que viveu com Páris.

5 maçãs douradas pra Margaret George!


Um dos meus livros de cabeceira é A Canção de Tróia, de Colleen McCullough (outra das minhas escritoras favoritas), que narra, magistralmente, em 1ª pessoa, não apenas a visão de Helena da guerra, mas de diversos outros personagens, desde o rapto de Hesione até a queda de Tróia em si, aonde cada capitulo aborda um aspecto da lenda e é narrado sob a perspectiva de cada um dos personagens escolhidos pela autora para descrever esses eventos. E é impossivel não se apaixonar por Ifigenia, Heitor, Odisseu, Aquiles e Briseis.

A Helena desse livro é afetada por sua beleza de maneira diferente da grande maioria dos romances, nele, Helena aparece como uma jovem adolescente manipuladora, egoista e mimada já ciente de seu sex appeal, sempre tirando proveito do efeito que causa nas outras pessoas. Essa Helena, tão humana e tão próxima da atualidade, tem diversas paixonites até que acaba provando de seu próprio veneno ao cair de amores por alguem tão futil e egoista como ela: Páris.

Helena que havia se casado a contragosto por Menelau, não pensa duas vezes ao fugir com Páris, mas se vê "presa" à Tróia após ver que cometeu um grande erro ao largar o trono da Lacedemonia (o antigo nome de Esparta) por uma simples coroa de princesa troiana que nem ao menos estaria na linha de sucessão do reino. Helena também se decepciona ao ver que Páris não lhe dá o valor que ela acha merecer, e que ele se mostra um homem tão instavel e infiel quanto ela, além de viver se aventurando com ninfas da floresta, enquanto ela é odiada pelos troianos por ter sido o pivô da guerra que assola a cidade. O Páris deste livro é bem mais velho que Helena, um conhecido mulherengo em Tróia, acostumado com o luxo da corte e os privilegios da nobreza que um homem extremamente belo, rico e "bom partido" como ele sempre tem. Portanto, a paixão dos dois que teria ocasionado a guerra, nada teria de divino, muito pelo contrario, não passaria da atitude de dois jovens inconsequentes e egoistas.

*Ponto Super Positivo: Neste livro, Esparta é retratada com seu nome na época em que as lendas teriam realmente ocorrido - Lacedemonia -, e a autora trabalha muito a cultura da Era do Bronze!

A Canção de Tróia é um livro tão maravihoso e fascinante que eu já li 9 vezes (sem exagero nenhum) e ainda tenho vontade de reler de tempos em tempos. É um livro que recomendo à todos que conheçam um pouquinho do Ciclo Épico Troiano.

5 maçãs douradas para Colleen McCullough!


Na onda de livros sobre a guerra de Tróia, eu li também Troia: O Romance de uma Guerra do gaúcho Claudio Moreno, pelo visto, tão fascinado pelas lendas troianas quanto eu!
De todos os livros sobre o Ciclo Troiano que citei até agora, Moreno é o único que escreveu em 3ª pessoa, seguindo uma linha mais tradicional de escrita, mas nem por isso, menos interessante. O livro trabalha as lendas de maneira mais abrangente - e totalmente fiel -, é a minha principal indicação para quem quer aprender e entender melhor todas as lendas que abrangem o ciclo.

4 maçãs douradas para Claudio Moreno

Um livro totalmente inusitado que também retrata Helena, é o 2º volume da série Ramsés - Ramsés: O templo de milhões de anos - de Christian Jacq. Aonde o egiptologo/romancista coloca o casal Helena e Menelau absurdamente acompanhados de Homero (sim, Homero com 500 anos de antecedencia, rs) aportando no Egito em pleno reinado de um dos maiores faraós da história.
A lenda realmente fala de uma "breve" parada no Egito que durou 8 anos, mas o nome do faraó em questão era Proteus, e não Ramsés. Mas valeu por mostrar uma Helena quase transparente e extremamente triste, um espectro, quase um fantasma (como as lendas gostam de trata-la nesta ocasião) e é muitas vezes comparada com a famosa beleza de Nefertari, esposa de Ramsés, que aos olhos do narrador, era muito mais bela que a pálida rainha grega.
A Helena deste livro é uma mulher na faixa dos 30, ainda de luto pela perda de seu grande amor, e totalmente acuada pela furia do marido traído, e que durante os 8 anos em que o casal fica no Egito, se dedica à tecelagem, se mostrando muito discreta e recatada, procurando manter distancia de seu irado marido.
O bacana da idéia abordada em Ramsés - O Templo de Milhões de Anos, é que, se a guerra de Troia realmente aconteceu, ela certamente teria sido contemporanea ao reinado de Ramsés, e faria parte do Reino Hitita (grande inimigo dos egípcios na época), sendo conhecida como Wilusa, o nome hitita (antgo turco) para Ilium, um dos nomes de Tróia, e que o povo dessa cidade estaria tendo problemas de hostilidade com um povo do mar chamado de Ahhiyawa, que provavelmente seriam os aqueus de Homero, uma das designações para os gregos. E que existem registros históricos de cartas trocadas entre os reis de Wilusa e Hatusa, a capital dos hititas. Fantastico, não? Mas essas possibilidades e perspectiva eu prefiro abordar posteriormente e com um texto só para ela, para poder desenvolve-la sem ficar cansativa para o leitor. Até porque, o livro de Christian Jaqc não entra nesses detalhes todos que estou citando, fica apenas na introdução do casal real grego na corte egípcia do faraó Ramsés II.

3 maçãs douradas para Ramsés - O Templo de Milhões de Anos


Finalizando a minha modesta listinha de livros baseados em Tróia, está "O Incendio de Tróia" de Marion Zimmer Bradley (a mesma autora de As Brumas de Avalon), que honestamente, não gostei!

Narrado pela princesa troiana Cassandra, a autora toma "liberdades poéticas" demais, alterando detalhes importantes da trama que descaracterizam as lendas por completo. Eu não consegui engolir até hoje uma Cassandra que fosse gêmea de Páris, uma Andromaca que fosse filha da rainha amazona, e um Odisseu pirata partidário de Tróia.

A Helena desse livro não tem destaque, é morna, apagada, quase tola! E não tenho como negar que me decepcionei horrores com o rumo que a história tomava, com a lentidão que viagens aleatórias - que nada tem a ver com as lendas troianas - se arrastava por paginas e paginas de monotonia. A única coisa que realmente gostei foi do ultimo capitulo, não só porque acabou o livro, mas também pelas informações historicas pouco conhecidas que foram abordadas.

2 maçãs douradas para Marion Zimmer Bradley.


Bem, ainda quero ler "Nobody's Princess" de Esther Friesner; "Goddess of Yesterday" de Caroline B. Cooney; "The World's Desire" de Henry Rider Haggard; "The Memoirs of Helen of Troy" de Amanda Elyot; Cassandra: Princess of Troy de Hilary Bailey; Daughter of Troy de Sarah B. Franklin (este sob a perspectiva de Briseis, minha persongem favorita das lendas troianas ao lado de Ifigenia)... Wow! Haja moedinhas pra comprar todos esses livros, né? E olha que estes são apenas alguns dos que quero ler dentro desse tema! Imagine a minha "listinha" de proximas aquisições? rs rs... Maaas, voltando à pauta:

Claro que as versões classicas de Helena - e de outros personagens do Ciclo Épico Troiano - devem ser lidas, portanto, procure pela Iliada e pela Odisseia de Homero, por peças tragicas e poemas entre outros trabalhos grego-latinos de Euripides, Hesiodo, Esquilo, Sofocles, Higino, Sapho, Virgilio, Ovidio, Quintus de Smyrna.. Ou mesmo da visão medieval de Chaucer, Iosephus Exoniensis (Joseph of Exeter, que escreveu De Bello Troieno) e Benoît de Sainte-Maure, e renascentista de grandes nomes da literatura e do teatro como Goethe, Shakespeare e Marlowe para conhecer melhor essa fascinante personagem que poderia ser real, mas até que se prove o contrario, vive apenas na mitologia grega e na cultura mundial. Afinal, um rosto que moveu mil navios só poderia ter muitas faces através da historia da humanidade!

by mara sop

5 comentários:

La Sorcière disse...

Mara, eu gostei tanto de "O Incêndio de Tróia"!
Será que é pq não li um livro sobre ela realmente bom e, poratanto, não tenha base para comparação.
Fiquei interessada no livro de Colleen McCullough, merecedor de nada menos que 5 maças douradas!!!
Vou procurar no EV,
Bj

Mara Sop disse...

O livro de McCullough é sensacional, e coloca Marion Zimmer Bradley no chinelo!

;)

Vanessa Thiago disse...

Ai, eu amo desesperadamente Marion Zimmer Bradley, mas devo confirmar. Esse título é fraquinho... (Em compensação, Os corvos de Avalon é assombroso).
Quanto à Helena, acho que a melhor é a retratada em Canção de Tróia.
Ai, livros, livros e mais livros...

Anônimo disse...

Quero muito ler Helena da Margareth George! Depois desses comentários, então... Acho que já vi qual será meu presente de Natal para mim mesma!!!

Mara Sop disse...

K, se quiser eu te empresto!

=D